Mauricio Tagliari
De São Paulo
Alemanha, Bélgica e Inglaterra estão para a cerveja como França, Itália e Espanha estão para o vinho. Vinho e cerveja, ironicamente, devem ter surgido na Mesopotâmia, dizem os arqueólogos, onde hoje é proibido o consumo de álcool. Espalharam-se pela Europa, criaram tradição, estilos e hoje enfrentam a concorrência do Novo Mundo. O caso dos vinhos é por demais discutido. O preço e a flexibilidade de legislação têm facilitado a explosão do Novo Mundo. Muitas vezes em detrimento da variedade e do terroir.

Um caso mais interessante acontece com as cervejas. Bem, não falo aqui da avalanche Inbev, que depois da união das duas maiores cervejarias brasileiras (Antartica e Brahma) partiu para a conquista primeiro da Europa e depois do mercado americano, num meganegócio de ideologia agressiva, nem sempre privilegiando a qualidade do líquido, mas a quantidade do lucro líquido...
Não, caro leitor e cara leitora. Trato aqui das revoluções locais do Novo Mundo nas chamadas cervejas premiuns, nas microcervejarias. E quando dizemos Novo Mundo, podemos incluir, por exemplo, a Itália. Do mesmo modo que Portugal é um pouco Novo Mundo no vinho.
É bem verdade que, assim como o chamado corte bordalês (cabernet sauvignon e merlot, com mais uma ou outra uva típica de bordeaux) é a base do vinho do Novo Mundo, no universo da cerveja os estilos dos três países citados acima são também a base para as experiências inovadoras.
O estilo alemão.
A escola alemã é talvez a mais popular, com o maior número de cervejarias em funcioamento e a legislação mais antiga. A chamada lei da pureza remonta à Idade Média e é a garantia de qualidade do produto alemão. Suas cervejas só podem ser produzidas com maltes, água, lúpulo e leveduras.
Diz a lenda que o cervejeiro tinha de passar por um teste simples. Derrubada uma certa quantidade de cerveja num banco de madeira, e depois de esperar secar, o fabricante era obrigado a sentar. Se os fundilhos do pobre ficassem colados ao banco era sinal de que ingredientes impuros, como açúcar, haviam sido adicionados ao mosto. E a condenação era simplesmente a forca! Hoje as leis continuam rígidas. Mas nem tanto...
A escola alemã, que inclui as austríacas e tchecas, produz cervejas leves e é a principal fonte inspiradora das chamadas cervejas de massa. Com destaque para as lager tipo pilsen. Infelizmente, o que na Alemanha é um exercício criativo para chegar ao limite das possibilidades, extraindo o melhor dos ingredientes básicos, chega ao mercado de massa apenas com a "leveza". Mas, além das pilsener, temos as weissbier (feitas de trigo), as bock, dunkel, rauchbier, altbier, schwarzbier e muitos outros tipos de cervejas extremamente interessantes, originadas da escola alemã.
A escola belga.
Oriundos de uma tradição monástica (como as famosas trapistas) e/ou camponesa, os mestres cervejeiros belgas exercitaram uma liberdade bem distinta da vida dura dos colegas alemães. Experimentaram adicionar frutas diversas à fermentação quase sempre espontânea. Criaram cervejas muito aromâticas e com maior teor alcoólico, que tentam cobrir todo o leque possível de harmonização com as refeições. Ainda é uma escola com relativamente pouca influência no Novo Mundo. Mas isto vem mudando.
A escola britânica.
Irlandeses e escoceses vão chiar, mas, assim como no futebol, a escola britânica de cervejaria inclui os outros bravos povos das ilhas. As cervejas principais são as ales, isto é, de alta fermentação. Seus estilos podem variar das mais amargas, com maior concentração de lúpulo (a florzinha que dá aroma e amargor às cervas), até àquelas mais escuras, que utilizam malte torrado e baixa graduação alcoólica. India Pale Ale, Stout, Porter, Extra Special Bitter são alguns dos estilos mais conhecidos (seguidos por uma gradação de Sweet Stout ou Ordinary Bitter, etc). Todas com sabor muito marcante. Passando a quilômetros (no caso, milhas!) das insossas lager bebidas nas nossas praias tropicais. Tem quem ame e quem odeie. Estas têm sido talvez as mais imitadas nas cervejarias artesanais (ou nem tanto) do Novo Mundo.
Um bom exemplo, e para mim uma surpresa, foram as ales australianas que provei recentemente da cervejaria Coopers. Elas apagaram completamente a imagem daquelas lager que o Crocodile Dundee botava goela abaixo para se refrescar. Provei quatro delas, engarrafadas em vasilhames de 375ml. Todas de alta fermantação e usando apenas malte de cevada, água e lúpulo.
Coopers Best Extra Stout. Forte como deve ser, refermentada na garrafa e 6,5% de álcool. Tem espuma intensa, cremosa, aroma com toque de caramelo, bem amarga e final com tostados. Tem resíduos no fundo. Me fez lembrar da primeira vez que bebi uma Guinness!
Coopers Sparkling Ale. 5,8% de álcool. Amarelo-escura, também refermentada na garrafa e bem turva. Espuma firme. Encorpada, forte e amarga na medida certa. Frutada e com um final refrescante. Produzida desde 1862 por fermentação natural.
Coopers Pale Ale. 4,5% de álcool. Amarelo âmbar, boa espuma e turva pela presença dos levedos da segunda fermentação na garrafa. Frutada, floral no nariz e levemente amarga no palato. Final refrescante.
Coopers Vintage Ale. 7,5% de álcool. É uma cerveja que amadurece em adega para adquirir aromas e sabores mais ricos. Tem todas as características das boas ales e é divertida e profunda como um bom vinho.
A média de preços por garrafa é de R$ 9, competindo diretamente com as tradicionais inglesas e irlandesas, em muitos casos superando-as. Uma prova da vitalidade e da presença do Novo Mundo.
Mas o curioso é que a Coopers, uma cervejaria grande e tradicional na Austrália, incentiva a produção caseira! Há uma espécie de ordem dos cervejeiros Coopers, uma guilda. E o site oferece kits com todos os acessórios e ingredientes para produzir a própria cerveja em casa. Nem que seja para depois a gente chegar à conclusão de que é melhor e mais barato comprar a deliciosa cerveja deles!
Vai dizer que não é um tipo de revolução...
PS. fico devendo falar da revolução das cervejas premiuns brasileiras.